DISCLAIMER
tempo estimado de leitura: ~7 min
nota de confidencialidade: subtituí o nome real do produto e quadro societário, mas não posso anonimizar o segmento. YieldPro era uma plataforma de assinatura e monetização de conteúdo adulto. Isso importa porque envolve dados sensíveis, pagamento de alto risco e verificação de identidade que entravam na decisão desde o dia 1, não como camada extra depois. As imagens dos mockups abaixo são ilustrativas, não o material real da plataforma.
TL;DR
três sócios, com equity dividido igualmente, construindo uma plataforma de assinatura e monetização de conteúdo adulto com foco em personalização.
Prototipamos boa parte do fluxo e paramos antes de lançar: nosso runway estava encurtando mais rápido do que a chegada do próximo aporte.
Foi essa conta, e não uma matriz de priorização no papel que decidiu por nós.
a fresta que dois líderes consolidados deixaram aberta
em 2022, o mercado brasileiro de conteúdo adulto por assinatura já tinha um líder nacional consolidado, e um líder global operando havia anos. não dava pra competir com nenhum dos dois.
a aposta era abrir uma fresta que eles ainda não tinham ocupado: descoberta de conteúdo desinteressante pro consumidor, e falta de previsibilidade de receita e transparência financeira pro creator.
essa fresta veio de uma observação simples.
Nas rodadas de entrevistas qualitativas com consumidores, o padrão que aparecia era tempo gasto procurando algo que interessasse em vez de efetivamente consumindo.
ao mesmo tempo, o TikTok se consolidava no Brasil com um feed guiado por comportamento, sem depender de busca. ninguém tinha trazido esse modelo pra conteúdo adulto ainda.
nunca chegamos a testar essa hipótese com usuário real dentro do produto. ela nasceu da pesquisa qualitativa e da leitura do momento de mercado, não de validação em produção, é importante nomear isso com clareza.

freemium: a aposta que sustentava aquisição

dois perfis, uma tensão só
cruzei benchmarking de players diretos e indiretos com desk research sobre falhas de segurança e experiência nas plataformas existentes, e entrevistas com consumidores reais.
disso saíram dois perfis que guiaram o projeto inteiro:
o creator, inseguro com previsibilidade de receita e sem transparência financeira
o subscriber, frustrado com descoberta ruim antes de assinar.
equilibrar os dois ao mesmo tempo, sem perder a conexão entre descoberta e monetização, foi a complexidade que pesou em toda decisão de escopo daqui pra frente.
O que construímos, e onde doeu
design e PM avançavam bem juntos: pesquisa, validação, protótipo e roadmap rodando.
o atrito real apareceu entre PM e tecnologia na hora de transformar roadmap em sprint: estimativas erradas refletiam nas entregas incompletas, dependência técnica que aparecia depois que já estava em produção.
eu sentia isso a cada ciclo: entrega sem pixel perfect, prazos que não fechavam
toda decisão de produto era votada entre os três sócios, com equity igual.
quando ficou claro que manter a personalização completa no escopo poderia atrasar ainda mais o MVP, discutimos, votamos, e escolhemos manter mesmo assim, cientes do custo
da minha parte, a decisão que mais defendi foi manter tudo sob design minimalista: o conteúdo era a estrela, a interface só precisava fazer ele chegar rápido.
entrei em conflito isso mais de uma vez, principalmente quando havia pressão pra adicionar elementos de gamificação no feed, e ganhei a maioria dessas discussões.

o que entrou no MVP, o que ficou pra trás, e por quê
usamos matriz de impacto x esforço e MoSCoW pra separar o que era viável de lançar primeiro e priorizamos:
feed personalizado
ferramentas de publicação com controle de acesso por assinante e duração de vídeo por tier: até 20 segundos para usuário free, até 12 minutos pra assinante
carteira do creator com saldo disponível e pendente, retirada mínima de R$50, taxa de plataforma de 20%
pagamento via Pix
o pagamento por pix não foi escolha óbvia, toda a jornada de pagamento por cartão de crédito tinha protótipo também, com recorrência automática, gestão de carteira e follow-up de vencimento de assinatura. mas cartão exigia split de pagamento em tempo real entre plataforma e creator, o que aumentava muito a complexidade de implementação.
priorizamos Pix pro MVP e adiamos a recorrência automática, sabendo que isso custava retenção sem ter como medir quanto.
verificação de idade e documento não era resposta a nenhuma cobrança regulatória. Era premissa nossa desde o desenho do produto.
sem confirmação de identidade, sem rosto, sem post.
chegamos a levantar os custos de APIs de verificação facial e documental, mas essa etapa nunca saiu do protótipo
Por que paramos?
simplesmente porque a conta não fechava. chegou um ponto em que estávamos gastando mais dinheiro do que nos aproximando de conseguir investimento pra sustentar o ritmo
paramos ali, antes que o caixa decidisse por nós, essa decisão de não lançamento foi, portanto, um resultado direto do processo, e não uma falha.

O que isso me ensinou
anos depois, em 2025, a plataforma líder global adotou um formato de stories parecido com o que apostamos lá atrás. a líder nacional, nosso benchmark mais próximo, ainda não tinha feito o mesmo até onde acompanhei
a leitura mais honesta é que a direção fazia sentido, e o que faltou foi caixa pra aguentart esperar o mercado confirmar. mas essa leitura eu só consigo fazer hoje, olhando pra trás com outros olhos
em 2022 eu ainda me via mais como profissional de UX do que como product designer de fato. as decisões de interface e usabilidade, eu tomava com convicção total, enquanto as de produto, eu ainda estava calibrando com os outros dois, e foi provavelmente por isso que não enxerguei o sinal de mercado a tempo de agir sobre ele, só de constatar depois.
este projeto foi um divisor de águas na minha carreira, de lá pra cá meu olhar estratégico aprimorou, e é esse tipo de leitura que hoje divide meu trabalho entre design e produto.
